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Sputnik: A esfera que mudou o mundo ![]() 04/10/2007 A sensação vinha do espaço em forma de bip...bip...bip... e eletrizou radioamadores do mundo inteiro, transformados de repente nos primeiros presenciadores, ainda que de forma auditiva, do estranho recado vindo do éter. As principais notícias de todas as mídias do planeta foram ocupadas, em plena guerra fria, pelo espetacular objeto voador que circundava a terra. O mundo ocidental dobrava-se ao surpreendente feito da União Soviética: Pela primeira vez na história da humanidade um satélite artificial era lançado e colocado com êxito em órbita terrestre. Mais que isso, a esfera de aluminio reluzente podia ser vista a olho nu, durante a noite, por onde passava, como se fosse uma nova estrela no firmamento. Homens, mulheres, idosos e crianças postavam-se nas ruas, logo após o sol desaparecer, na esperança de testemunhar em algum lugar do céu o espetáculo que estava na boca do povo. Os soviéticos, além de matar a cobra, faziam o pau voar para todos verem. As reações iam da perplexidade ao medo. Brinquedo assustador Estações de rádio retransmitiam a seqüência de bips, como se fosse o maior furo jornalístico até então. Mesmo emissoras da nação arquiinimiga perdiam o pudor: "Ouçam este ruído. Ele separa para sempre o novo do velho" , dizia reportagem da NBC norte-americana. Para ouvintes do Cairo, no Egito, o recado da rádio local era outro: "Você está ouvindo os sinos que anunciam a morte do colonialismo", profetizava o locutor. O novaiorquino Time constatava uma ameaça em forma de uma "lua vermelha sobre os EUA", enquanto o Washington Post via um "espião no céu". Até mesmo o Vaticano apressou-se igualmente a participar da frenesi coletiva, vaticinando: "O Sputnik é um brinquedo assustador nas mãos de pessoas infantis, sem moral ou religião". Do outro lado da crença, Joseph Lewis, presidente da Sociedade de Pensadores Ateístas do EUA, anunciava: " O satélite não encontrou nenhum Deus nos céus". Cada um com sua versão ou interpretação, a verdade é que ninguém ficou indiferente e, no dia 4 de outubro de 1957, o Sputnik (trad.: Companheiro), como foi batizado o satélite, inaugurou um novo tempo na história do homem, não apenas na engenharia espacial, não apenas no impulso dado ao radioamadorismo, não apenas ao alimentar os sonhos espaciais e extraterrestres de boa parte dos terráqueos, incluindo poetas e seresteiros, mas também na ciência, eletrônica, informática e, decididamente, na política que iria determinar os decênios posteriores. Mister X e Sergei Korolev Próximo da localidade de Tiuratam, pleno deserto da então república soviética do Cazaquistão, foi escolhido o local que viria a se tornar depois o Cosmódromo de Baikonur. No começo, base do mais secreto projeto militar da União Soviética, destinado à construção de mísseis que pudessem, equipados com ogivas e dotados com uma autonomia de 8 mil quilômetros de vôo, alcançar território norte-americano, despejando destruidoras bombas de hidrogênio. O projeto teria ficado meramente no âmbito de seu objetivo militar, não fosse a abnegação, insistência e os sonhos de um homem que viria a ser conhecido pelo mundo, até sua morte, como o misterioso Mister X, a mais protegida e resguardada identidade de um cidadão soviético da história, medida determinada como segredo maior de estado pelos poderosos senhores do poder da URSS. Os comunistas temiam seriamente uma tentativa de seqüestro do cérebro principal do programa aeroespacial socialista pelos inimigos de classe ocidentais. Sergei Pavlovich Korolev era fascinado pela idéia de foguetes e viagens espaciais. Nasceu em Zhitomir, na Ucrânia, em 30 de dezembro de 1906 e, seguindo sua paixão, foi admitido em 1922 na escola de construção de Odessa, onde iniciou-se na aviação, passou pelo Instituto Politécnico de Kiev, concluindo finalmente seus estudos de engenharia na Escola Técnica Bauman (MVTU), em Moscou, a mais famosa universidade de engenharia da Rússia. Escapou milagrosamente da morte, sobrevivendo à prisão em Gulag, na Sibéria, vítima das intrigas e "limpezas" praticadas durante os famigerados expurgos sob o comando de Stalin, assim como ocorreu com outro soviético, posteriormente famoso na engenharia de aviação, Andrei Tupolev. Vivo e reabilitado, Korolev atuou em diversos projetos em sua área, até o Comitê Central das URSS torná-lo responsável, em 1954, pelo programa de mísseis intercontinentais, encarregando-o desde o início da execução do projeto militar no deserto de Baikonur. Foi o início teórico do vôo do Sputnik. Sem Korolev, as possibilidades de um satélite no céu em 1957 seria minima, muito menos sob o comando dos soviéticos. Nikita Kruchev e a resistência do Comitê Central Embora o objetivo fosse exclusivamente militar, Korolev, ao chefiar o desenvolvimento de poderosos mísseis, aproveitava sua atividade para sempre levar em conta nos cálculos e planos algo além de explodir bombas em território inimigo. Um artefato que possibilitasse carregar as perigosas e pesadíssimas geringonças explosivas a outros continentes teria que possuir também força suficiente para entrar no mundo desconhecido do espaço sideral. A tarefa de construir o mais potente dos projéteis, o míssel R-7 a partir das plantas de seu projeto, tornou-se para ele automaticamente ambígua. Nas suas conversas com superiores e chefes políticos soviéticos ele insistia no assunto, embora sem conseguir convencer ninguém. Foi em uma das visitas periódicas de acompanhamento dos trabalhos na base que, mais uma vez, voltou ao assunto com o visitante ilustre, Nikita Kruchev, chefe maior da URSS, aventando as possibilidades de um satélite artificial como trasportador de equipamentos de observação, câmeras, por exemplo, auxílio imprescindível para espionagem, com a vantagem de estar absolutamente fora do alcance do inimigo. Kruchev, relutante, concedeu a permissão sem antes, contudo, sublinhar que isso seria uma atividade secundária, frisando a prioridade militar máxima do projeto: Mísseis intercontinentais para trasnportar bombas. Os primeiros testes de lançamento do R-7 foram desastrosos. O objetivo era, na comemoração dos 40 anos da revolução, divulgar ao mundo o poderio e a nova arma espetacular da URSS, prova da capacidade e objeto de propaganda do socialismo soviético. Sputnik, filho do acaso De maio a agosto de 1957 todas as tentativas, e foram várias, de lançamento do R-7 falharam. No melhor dos testes o foguete explodiu um minuto e meio após a partida. Korolev e sua equipe trabalhavam agora sob intensa pressão profissional e, sobretudo, política. Finalmente, em meados de agosto, ocorreu o primeiro êxito da missão: O míssel partiu e voou o percurso programado sem problemas e sem defeitos. Ao chegar ao local da queda, entretanto, os cientistas constataram que não havia vestígios da ogiva (sem explosivo) acoplada ao foguete no teste. Sinal de que ela simplesmente desintegrou-se, reduzindo-se a pó com o aquecimento. Um grave erro de concepção, revelando o material inapropriado usado. Mas isso não era problema de Korolev e sua equipe e sim dos cientistas encarregados no desenvolvimento do material de isolamento a ser aplicado no invólucro que guardaria a bomba até o destino. Com isso caía por terra o plano do governo soviético de comprovar ao mundo sua capacidade, no aniversário da revolta bolchevista. Não haveria tempo suficiente para desenvolver e testar novamente o novo material. Nascia a chance de Korolev realizar seu sonho. Sua tarefa estava cumprida, o R-7 podia voar de forma controlada e segura. O que fazer até chegar a nova ogiva? Ao invés de usar o tempo testando o R-7 sem peso ou carga, ele viu a oportunidade única de acoplar um satélite e enviar o foguete literalmente aos céus. O último obstáculo a ser vencido era produzir a tempo o próprio satélite. A Academia de Ciências da URSS trabalhava, na verdade, no protótipo de um satélite, mas em menos de seis meses ele não estaria pronto. Para ultrapassar a última barreira, Kurolev convenceu a direção política de que, neste intervalo, os norte-americanos poderiam enviar um satélite ao cosmo, tomando a dianteira na rivalidade. Kruchev inclinou-se aos argumentos e Kurolev partiu para o improviso. De fins de agosto até início de outubro ele passou, quase sem pausas, ocupado projetando e dirigindo sua equipe em turnos na montagem de seu satélite pessoal, o que viria a ser o Sputnik. Ao fim, com uma esfera de 58 centímetros de diâmetro, quatro antenas, pesando 83 quilos e um trasmissor de ondas de baixa frequência em seu interior, estava pronto o primeiro objeto feito pelo homem a entrar de forma controlada na órbita do planeta. A perfeição do cientista chegou a tal ponto, que o Sputnik foi polido constantemente e, por fim, somente era tocado com luvas especiais, para evitar que seu brilho fosse manchado. Segundo ele, o primeiro satélite teria que ser bonito e reluzente o suficiente para ser visto da terra pelo maior número de pessoas por onde passasse. No dia 4 de outubro finalmente, o R-7 subiu rumo aos céus carregando o Sputnik. Ao chegarem os primeiros bip-bip-bip na sala de controles em terra, os atônitos técnicos e cientistas, juntamente com Korolev, não conseguiram segurar as emoções. A humanidade virava uma importante página de sua história. Corrida espacial e cadela tostada O Kremlin não se deu logo conta do que estava acontecendo. Nem mesmo o jornal oficial Pravda abriu grandes espaços ao Sputnik em sua edição do dia 5 de outubro, dia imediatamente posterior ao lançamento do satélite. Somente quando a euforia e o noticiário que dominou o resto do mundo, inclusive os norte-americanos, chegou aos ouvidos soviéticos, que todos acordaram realmente para o feito. A febre mundial, de repente, tomou conta do Politbüro. Os burocratas socialistas descobriram a nova menina dos olhos e logo veio, exatamente de Kruchev, a próxima missão, em forma de pergunta, mas com expressão de uma ordem: Poderia então Kurolev, para o próximo mês, em substituição ao fracassado projeto da bomba, anunciar algo mais espetacular que o Sputnik, durante as festividades do aniversário da revolução? Estava dado o passo para a corrida espacial que por fim levaria o homem à lua. Em menos de um mês, a 3 de novembro, mais uma vez, Kurolev e sua equipe conseguiram o inusitado, com o lançamento da cadela Laika em uma cápsula espacial. A idéia foi sugerida por um membro da equipe do cientista, na falta de idéia melhor para executar em tão pouco tempo. Laika seria o primeiro ser vivo em órbita espacial. Outra vitória para impressionar de forma definitiva os norte-americanos A cadela morreu tostada, na verdade, poucas horas após decolar, vítima da elevação violenta de temperatura na cápsula sem isolamento adequado. A propaganda soviética, entretanto, omitiu o fato e, oficialmente, Laika havia sobrevivido uma semana em órbita, tendo sido então morta, como programado, através de envenenamento de sua ração alimentar, para com isso evitar maiores sofrimentos do animal no espaço sideral. Menos de quatro anos depois, abril de 1961, o mundo veria em Iuri Gagarin o primeiro ser humano a ir ao espaço. Pânico, extraterrestres e internet Nos EUA, enquanto a mídia e o povo exultavam e especulavam sobre os fatos vindos do leste, governo e autoridades dividiam-se entre pânico e impotência. O pai da bomba de hidrogênio, Edward Teller, foi taxativo sobre o Sputnik: "Perdemos uma batalha mais importante que Pearl Habor". O senador Lyndon Johnson, depois presidente, previu: "O céu se tornou estranho para nós. Logo os russos estarão jogando bombas do espaço sobre nossas cabeças, como crianças atiram pedras nos automóveis de cima de um viaduto". Enquanto no terceiro mundo brotavam bares e cinemas pomposamente chamados Sputnik, nos EUA iniciou-se a era dos abrigos atômicos particulares e fantasias espetaculares sobre extraterrestres. Assim, sob condições adversas e supostamente ameaçadoras, que foi dado o empurrão para o bilionário programa espacial norte-americano. Milhões e milhões de dólares foram investidos com um só objetivo: Tomar dos inimigos soviéticos a vantagem espacial. A Nasa, agência espacial dos EUA, foi criada e, ao assumir o governo, John Kennedy prometia em menos de dez anos fazer uma tripulação humana colocar os pés na lua, como aconteceu em 1969, mas sob outro presidente, Richard Nixon. A microeletrônica e pesquisa de novos materiais foram generosamente incentivados a peso de ouro. Na área militar tomou-se a decisão de descentralizar as fontes de dados das forças de defesa do país. Cientistas, técnicos e engenheiros iniciaram, nos limites da capacidade e velocidade humanas, a formação de uma imensa rede eletrônica espalhada por todo o país que, mesmo com algum de seus módulos fora de atividade, não impedisse o funcionamento do sistema. Nascia a precursora da web. O fim da era Macartista foi selado e o pensamento crítico tomou o lugar da cegueira maniqueísta na sociedade, passando pelas universidades, com reforma de currículos e ensino. Por indução, isso também abriu caminho para a revolta contra costumes e conservadorismo protagonizada anos depois pela juventude dos anos 60. Os novos tempos seriam novos no espaço e na terra. Morre Mister X e depois a URSS Em 1966, vítima de câncer, falecia Sergei Korolev, o principal mentor e protagonista da era espacial. Somente após sua morte foi permitida, com a anuência do novo chefe comunista, Leonid Breznev, a revelação de sua identidade e rendidos publicamente os merecidos tributos. Mister X foi sepultado com todas as honras no mausoléu do Kremlin, em funeral acompanhado por toda proeminência soviética, cosmonautas, cientistas, população e pelotões da imprensa. Com sua doença e morte o programa espacial soviético começou a perder força e os EUA assumiram a vanguarda no cosmo. Korolev, submetido a um isolamento científico compulsório, sequer teve oportunidades para intercâmbio internacional com colegas. Ao indagar pela identidade do responsável pelo programa espacial, para laureá-lo com o prêmio Nobel, o comitê responsável pela escolha dos premiados teve como resposta das autoridades: O povo soviético. O maior oponente de Korolev, o alemão Werner von Braun, a serviço dos EUA, igualmente só o conhecia por seu pseudônimo Mister X. Nunca trocaram conhecimentos ou cruzaram o mesmo caminho fisicamente. Talvez Mister X sofresse de alguma forma o isolamento, talvez compartilhasse. Com certeza usufruiu de regalias únicas em um estado totalitário. Foi também uma estrela no escuro firmamento dos sovietes. Como o Sputnik, estrela efêmera, passageira, mas brilhante. Hoje mais de 6000 satélites sobrevoam os céus, o mundo é outro, a URSS desintegrou-se como uma ogiva lançada ao espaço sem isolamento adequado. Os limites da ciência e da exploração do espaço ainda não foram demarcados e amanhã ninguém sabe o que poderá vir, mas nada, nem o esquecimento, alterará o fato de que o início de tudo, o primeiro passo, foi uma esfera brilhante a rondar o céu e a enviar o estranho e monótono recado para a terra: bip...bip...bip... Fontes: " Do Sputnik à Lua: A história secreta do programa espacial soviético" (Pierre Baland), Wikipedia, Der Spiegel e outras. |
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