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Ilona-Luise Reutter: Eu não tenho medo (27/10/05)
Ex-mulher de executivo faz graves acusações à Volkswagen
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Ilona-Luise Ilona-Luise Reutter (Foto:SternTV) Ilona-Luise Reutter é ex-esposa de Helmuth Schuster, um dos dos principais envolvidos no escândalo da Volkswagen e primeiro indiciado do caso. Schuster era o chefe de  recursos humanos da Skoda, filial checa da montadora, e mais íntimo colaborador de Peter Hartz, também indiciado.

Ilona-Luise deu uma longa entrevista à Revista Emma que vai às bancas hoje. Emma é o canal do feminismo na imprensa alemã. A revista foi fundada e é dirigida por Alice Schwarzer, a mais conhecida e influente feminista do país.  Ilona-Luise separou-se há dois anos de Schuster, muito antes do escândalo vir à luz do dia. Ela é a primeira das esposas dos executivos envolvidos que vem a público falar sobre o caso. A sinceridade de suas palavras mostra uma mulher com dignidade. E coragem.

Na entrevista Ilona-Luise diz que há dez anos tem conhecimento do envolvimento de executivos e sindicalistas com prostitutas pagas pela empresa, mas que tudo piorou para sua familia, quando Schuster foi transferido para a filial checa. Ela continuou morando na  Alemanha, por causa da educação dos filhos e da violência existente no País Checo. O antecessor de seu ex-marido foi assassinado em um crime até hoje insolúvel.  Schuster é o único dos envolvidos que não tem origem operária, sendo filho de classe média alta.

"Penso que o ser humano torna-se solitário quando, apesar de dinheiro e poder, não está sob a luz dos refletores", afirma Ilona-Luise, para explicar a metamorfose de Schuster.
No País Checo iniciou-se a transformação, diz ela. Antes ele possuía os pés no chão, em Praga, além das histórias com prostitutas, que ela sabia "mais ou menos", ele iniciou relacionamentos mais duradouros com mulheres.

Revista Emma: O que você pensou, quando tudo surgiu na imprensa ?

Ilona-Luise: É deprimente quando se vê como Gebauer, sob orientação de Dr. Hartz ou seguramente outros,  precisava trazer de avião mulheres de todos os bordéis do mundo, para fazer valer o Conselho de Fábrica  e novas decisões sobre acordos salariais. Trazer coisas, no caso mulheres, para adoçar a vida dos membros do conselho, e eles caírem na armadilha.  Pendurado e prisioneiro! Quem uma vez pisa neste terreno, fica à mercê do outro. O outro sabe sobre ele algo e pode entregá-lo a quem quiser. Isso é o Método Volkswagen. Eu duvido que tenha mudado. Eu não quero afirmar que o Sr. Osterloh (Red: atual sucessor de Klaus Volkert no conselho) se deixe comprar, como se deixou o sr. Volkert, mas nós ainda não tomamos conhecimento se continua ou não existindo uma Josélia B de Dr. Hartz ou uma Adriana B.
Elas ainda não continuam existindo? Às custas da Volkswagen?

Revista Emma: Você quer dizer que estas mulheres ainda recebem dinheiro da Volks para que fiquem caladas?

Ilone-Luise: Sim.

Revista Emma: Você sabia antes do sistema interno de prostituição da empresa?

Ilone-Luise: Eu sei disso desde 1995/1996. Desde que estou com meu marido.

Revista Emma: Seu marido contou para você ?

Ilone-Louise: Sim. Eu penso que ele não se vendeu no anos iniciais. Com seu trabalho ele era co-responsável pela política salarial, por exemplo. Através disso ele recebeu uma visão de todo o sistema. Eu acho que a gente cai dentro, torna-se corrupto e, em certo momento, ultrapassa o limite. A gente dá o passo e pensa que ninguém vai notar, seguindo o lema: Os outros também estão metidos cá dentro - o que já pode acontecer?

Revista Emma: Como se pode imaginar a própria vida: Uma mulher sabe que  o marido trabalha em uma empresa de baixo-meretrício?

Iline-Louise: A gente tem a esperança e ilusão de que o próprio marido não está metido nisso. Você acredita também nesta pessoa, você a ama e tem esperança. Eu acho que os outros maridos nunca contaram que tinham uma vida dupla. Mas eu e meu marido tínhamos um modo muito aberto conosco, porque tínhamos um relacionamento à distância. Para nós era claro que, se nós errássemos uma vez, iríamos explicar ao outro e conversar sobre isso abertamente. Quando descobri que lá (red: na empresa) os executivos possuíam uma vida dupla ou uma vida de bordel, chegou um momento em que não pude mais conciliar isso com minha consciência e meu modo de vida.

Revista Emma: Você teve ciúmes?

Ilona-Louise: Sim, isso também. Mas não tive ciúmes das prostitutas, pois isso são momentos passageiros. Ciúme mesmo tive quando percebi que ele também escolhia outras companheiras. Isso dói muito, naturalmente.

Revista Emma: Você tem contato com esposas de outros executivos?

Ilone-Louise: Não mais. Cortei os contatos depois da última viagem à Itália, ao lago Garda. Não foi nada relevante, era apenas uma viagem da empresa com as familias, para se conhecerem melhor. Acontece que eu tinha conhecimento dos bastidores, eu sabia muito. E eu não podia sentar simplesmente com outras mulheres que ignoravam, eram ingênuas ou na realidade nada sabiam do jogo que era jogado. Ou eram compradas. Lá não se podia ter uma conversa normal. Dr. Hartz observava tudo. Quando se conversava mais intensivamente com alguém, logo ele percebia. Então a conversa era interrompida ou eram feitos gracejos. A gente se pergunta o que aquilo significava, apenas ser um accessório para o marido e aparentar uma vida de familia? Pela carreira de meu marido eu não me vendo. É realmente uma dupla moral.

Revista Emma: Existem fotos e entrevistas nos jornais da amante de Peter Hartz...

Ilona-Louise: Senhor Hartz terá com certeza habilidade, para fazer sua esposa acreditar que não foi bem assim. Senhora Hartz é o tipo de esposa que faz aquilo que o marido diz. Ela apoiou a carreira dele, ela recebeu favorecimentos e se ela pode viver de bem com isso, acreditar que tudo isso que a imprensa diz é mentira, então melhor para ela. Quando, contudo, ela começar a desconfiar e ir atrás, aí vai ser difícil.

Revista Emma: Não havia uma única esposa sequer, com quem você pudesse conversar abertamente?

Ilonas-Louise: Existiu a senhora Gebauer. Ela divorciou-se anos atrás. Eu penso que ela descobriu o que acontecia nos bastidores e não conseguiu mais conviver com isso. Gostei também da senhora Volkert. Eu não posso imaginar que ela não sabia de nada.

Revista Emma: Seu marido conversava com você sobre os negócios?

Ilona-Louise: Eu sabia que ele era ativo na Índia e Angola. Os negócios na Índia fui eu quem incentivou, porque gosto muito do país. Detalhes da Volkswagen ele naturalmente não me contava.

Revista Emma: Os dois milhões de comissões que ele recebeu do governador de uma província indiana, para que a fábrica fôsse construída lá, você nada sabia?

Ilona-Louise: Não. Esses dois milhões de euros foram seguramente para investimentos iniciais e não propina.  Qual governo paga oficialmente propina para que VW, BMW vá para lá? Isso é ridículo.

Revista Emma: Mas foi a própria Volkswagen quem colocou em marcha o processo contra o seu marido. Se a VW quisesse que seu marido ficasse calado, seria um péssimo caminho propriamente, levá-lo à justiça.

Ilona-Louise: A Volkswagen quer com isso instituir exemplo: Como é procedido com alguém, que não mais age como ela quer. Ele sempre seguiu ordens. Ele nunca poderia de forma autônoma ir para a Índia e mandar construir uma fábrica no país. A VW é quase uma estatal. Imensas somas de dinheiro público fluem para a empresa e ex-funcionários da Stasi ainda têm um papel nesta companhia. Existem poderes em jogo, resultantes de décadas de ligações, difíceis de compreender para uma pessoa normal. A Volkswagen tem uma história própria. Esse duelo de forças, esse jardim da infância de executivos que sentam na Volkswagen é para mim lamentável e horroroso.

Revista Emma: Como você faz com os dois filhos? Consegue deixá-los fora disso? 

Ilona-Louise: Não e nem quero isso também. Eu procedo de forma muito aberta e sincera com minhas crianças. Fui na maior parte do tempo a única pessoa de relação para eles, mas sei que o pai é importante para os dois. Da mesma forma que os dois agora, idem, são importantes para o pai.  Eu esclareci as crianças, quando o escândalo surgiu na imprensa, que o pai deles foi indiciado. Tudo, naturalmente, de forma adequada para crianças. O menor tem seis anos e não compreende ainda o que seja propina, mas falei de forma aberta e disse que pode acontecer de o pai ir para a prisão.

Revista Emma: Existe uma ordem de prisão contra seu marido? Ele está escondido?

Ilona-Louise: Não, ele simplesmente tem medo do poder da Volkswagen, da mesma forma que o sr. Gebauer. Como seria simples, se ele houvesse morrido em um acidente de carro. Os dois têm medo de que algo aconteça, porque possuem informações privilegiadas. Meu marido desfez o apartamento em Praga e tem uma apartamento agora no sul da Alemanha, não muito longe, para continuar mantendo contato com as crianças. Ele estima que a Volkswagen não saiba exatamente onde mora agora. Meu marido é altamente inteligente, tem diversos títulos, escreveu livros e tem conhecimentos de economia; isso tudo a Volkswagen quer destruir maciçamente. A Volkswagen escreveu cartas a seus antigos parceiros comerciais e quer dificultar que ele tenha um novo início.

Revista Emma: Você diz que a Volkswagen tem um serviço secreto próprio, o Werkschutz (Proteção da empresa)?

Ilona-Louise: Desde o início do escândalo meu marido teve o carro diversas vezes arrombado. A casa em Praga foi arrombada também. Fotos que ele possuía e mostravam sr. Hartz com determinadas mulheres desapareceram. Tanto faz o que meu marido fez e quanto criminoso ele seja, é muito decente, que ele ainda não pôs coisas sobre a mesa, que realmente teriam graves consequências, também para a Volkswagen. Tudo seria um imensurável prejuízo para a imagem, de tal forma que ninguém na Volkswagen conseguiria reverter.

Recista Emma: Você diz que a aranha de toda a teia das atividades de prostituição era Sr. Gebauer?

Ilona-Louise: Sim. Sr. Gebauer foi, durante 15 anos, da "Interne Revision" (Red: Uma espécie de auditoria interna permanente). Ele não pode, de forma nenhuma, ter tido a intenção de aproveitar-se ou abrir contas, pois ele, como auditor interno, sabia bem o que mais tarde o esperaria. Ele recebeu ordens de Peter Hartz ou outros superiores.

Revista Emma: E o presidente do Conselho de Empresa?

Ilona-Louise: Exatamente na Volkswagen o Conselho de Empresa é muito poderoso. Naturalmente que qualquer empresa, tanto faz o tamanho, tenta convencer os membros do conselho para seus objetivos, para chegar a um consenso. Mas manter o humor do conselho ou comprá-lo são duas coisas diferentes.

Revista Emma: Mas os trabalhadores não estão verdadeiramente todos com raiva de Volkert..

Ilona-Louise: Ele é igualmente um homem do povo, o tipo cúmplice, que pode se permitir isso, mesmo que tenha renunciado seu posto. É preciso ver que ele também estava envolvido nas negociações para a semana de quatro dias, o que evitou demissões em massa. E agora a Volkswagen está novamente diante de demissões em massa. E o escândalo chega agora, claro, como sob encomenda...

Revista Emma: Você tem propriamente medo?

Ilona-Louise: Eu fui muito advertida pelos advogados, mas não tenho medo. A Volkswagen não vai ousar atacar uma mãe de duas crianças. Aí ocorreria uma solidariedade em massa entre as mulheres, entre as de mesmo credo.

Site da revista Emma


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