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28/12/2005
Wolfgang Amadeus Mozart (1756 - 1791)
- 250 anos e uma eternidade (Parte 1)
Peça
teatral "Amadeus" (EUA)
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Ele foi a primeira, maior e mais espetacular
estrela pop da música. Fosse hoje vivo e usufruísse das leis
e regulamentações de direitos autorais, licenças e
mechandising vingentes, seria um homem tão rico como Bill Gates.
Faturaria nas vendas de produtos que vão de chocolates a licores,
chaveiros e até xícaras.
Sua receita principal, contudo, viria de suas composições,
uma fábula, mesmo para um Bill Gates.
Mais de 20 mil livros foram publicados sobre ele ou sua obra. Dezenas de
novas publicações rodam nas gráficas ou já ocupam
as prateleiras de livrarias do mundo inteiro. Mozart, Joannes Chrysostomus
Wolfgangus Theophilus (depois Amadé) Mozart, para o mundo Wolfgang
Amadeus Mozart, o menino prodígio, gênio inigualável
e unânime da humanidade, completaria, no dia 27 de janeiro próximo,
250 anos. O ano cultural de 2006 girará mundialmente em torno de
seu nome. Em quase todos os países, dos cinco continentes, serão
promovidos eventos dedicados a ele. A totalidade das principais orquestras
existentes estão com sua programações fechadas para
2006, bem como as boas casas de ópera e teatros: Só dá
Mozart. Mas quem era ele? |
Excêntrico irresistível
Diante de tal veneração,
fosse Mozart vivo, estaria adorando e dando risadas, sonoras gargalhadas
enquanto, na penumbra de algum camarim, com seus tiques e manias típicos,
trocaria carícias amorosas com alguma soprano, bailarina ou, quem
sabe, uma bela representante da mais fina, naqueles idos já decandente,
nobreza européia da fase pré-revolução francesa.
Não vamos nos ater ou
nos aprofundar em estudos especializados de sua obra. Disso o mundo está
repleto e nunca será pouco. Seria também pretensão
sem cabimento. A nós, leigos, mesmo temporais e fugazes amantes da
música, interessa conhecer o artista sem o manto fundamentalista
e teórico, objetivo e específico, que está à
disposição aos borbotões, fruto de trabalho árduo
de gerações de musicólogos, estudiosos e historiadores.
O Mozart que nos interessa é o que viveu seus trinta e poucos anos
com uma intensidade de tirar a respiração de qualquer mortal.
Aquele que no seu tempo, tempo das carruagens, percorreu dezenas de milhares
de quilômetros, uma façanha até hoje, levando sua música
a salões de cortes e à ralé, a imperadores e aos bêbados
de rua, à uma Maria Teresa e a servis lacaias e plebéias,
ávidas de seus fungados sedutores.
Claro que isso não pode passar sem sua música. Mas, para
entender a música de Mozart, leigos que somos, é preciso saber
que ele não a reinventou. Ele simplesmente deu à música
de seu tempo o toque de gênio. A fez universal e atemporal.
Hermann Hesse, um dos maiores escritores do último século
e prêmio Nobel de literatura, dizia que Mozart genialmente pescou
e agrupou notas musicais que pairavam no ar, que existiam flutuando no éter,
alheias e imperceptíveis ao ouvido humano, as transformando em sonatas,
óperas, como brincando. Divinamente brincando.
O início
Em 27 de janeiro de 1756, em
Salzburg, aos pés dos alpes, na Getreidegasse 9, nascia o sétimo
fillho do compositor e violinista Leopold Mozart (1719-1787) e sua esposa
Anna Maria (1720-1778). Os cinco primeiros rebentos do casal não sobreviveram.
Wolfgang Amadeus, o "Wolfgangerl", e sua irmã, também Anna
Maria (1751-1829), apelidada carinhosamente de Nannerl, quase cinco anos
mais velha, tiveram mais sorte. Mozart herdara dois de seus prenomes do padrinho,
Joannes Theophilus Pergmayr.
Amadé, do francês, foi uma decisão posterior do compositor,
para substituir, com o mesmo significado, o nome Theophilus, que é
a versão grega de "amor de Deus". Ele era conhecido artisticamente
em vida como Wolfgang. Adulto assinava na maioria das vezes Wolfgang Amadé.
"Amadeus" era como ele se chamava de forma brincalhona, latinizando
por irreverência o próprio "Amadé" que adotara.
Somente no século passado, através da indústria fonográfica
e radiofonia, Amadeus foi definitivamente introduzido,
tornando-se hoje parte inseparável de seu nome. Falou-se apenas Amadeus,
qual língua seja, todos sabem que trata-se de Wolfgang Mozart.
Leopold Mozart, filho de uma
próspera familia da cidade de Augsburg, na Alemanha, chegou a Salzburg
jovem para estudar Teologia mas, exímio violinista, decidiu seguir
a música. Por sua habilidade com o violino foi em 1740 contratado
pelo poderoso Conde de Thurn e Taxis. Em 1747 casou Anna Maria Pertl, que
tornou-se Anna Maria Mozart. A publicação de uma obra clássica
do violino (Ensaio sobre o ensino do violino) levou Leopold a ser nomeado
compositor de câmara da corte do arcebispado de Salzburg, onde tornou-se
depois violinista e chegou a vice-kapellmeister, espécie de vice-dirigente
musical geral. A vida da familia respirava e suspirava música. Aos
sete anos Nannerl aprendeu com o pai a tocar cravo. O irmão menor
acompanhava o ritmo da casa e aos quatro anos incompletos também aprendeu
a musicar com o instrumento. O talento de Nannerl empolgava o pai, mas a
precocidade de "Wolfgangerl" espantava-o.
Mozart não apenas aprendia
quase sozinho a tocar os instrumentos: Saltava aos olhos de seu pai
a compreensão teórica musical que ele, inexplicavelmente e
sem experiência, dominava. Aos cinco anos compôs um concerto
para cravo que Leopold, incrédulo, duvidou se alguém seria capaz
executá-lo, tal a complexidade da composição. "Papa",
respondeu Wolfgang, " é um concerto. Para ser um concerto é
necessário praticar até poder executá-lo".
O menino prodígio
pelo mundo
A segurança e destreza
de Nannerl impressionavam, mas a perseverança e criatividade do irmão
menor exaltavam também os amigos músicos da familia. Mozart passava horas a
fio, sozinho, exercitando cravo. Era seu brinquedo principal, ao que se juntaram
o órgão, piano e violino.
O que já era uma sensação em Salzburg, precisava ser
visto em outras paragens. Orgulhoso, Leopold organizou a primeira grande
viagem musical da familia. No dia 12 de janeiro de 1762, o menino prodígio
e sua talentosa irmã foram levados primeiro a Munique. O sucesso perante
a nobreza da cidade determinou a ida ao centro mais cobiçado pelos
músicos de então: A corte de Viena, em setembro do mesmo ano.
Passau, Linz, Mauthausen, centros no caminho para a metrópole do império,
eram estações obrigatórias, onde corte e prelado aguardavam
festivamente o grupo. O ápice da maratona: Apresentação
privada no palácio de Schönbrunn, em Viena, para o imperador Francisco
I e imperatriz Maria Teresa. O auge do reconhecimento a famosos e experientes
compositores e músicos de então, era alcançado por Mozart
no dia 13 de outubro de 1762, aos seis anos de idade.
Montanhas de presentes, convites, afagos, dinheiro e fama além das
fronteiras fizeram Leopold dedicar-se pratica e exclusivamente aos dois filhos.
Nascia o primeiro grupo pop com fins comerciais da história. Wolfgang
Amadeus era a estrela principal. Seguiram-se viagens a Munique novamente,
Augsburg, terra natal de Leopold, e outras cidades da Alemanha. As apresentações
eram feitas tanto em salões nobres da realeza como também em
locais mundanos, palcos improvisados em salas de albergues e restaurantes
por onde passavam. Pagando para o ingresso, a massa popular desfrutava igualmente
o encanto do menino maravilha que encantava os senhores feudais.
A caravana logo contava com suporte logístico próprio, carruagens
e inclusive "piano de viagem" foi adquirido. É incontável o
número de cidades onde fizeram apresentações.
Até 1766 o grupo percorreu Áustria, Hungria, Alemanha, Bélgica,
Holanda, França, Suiça e Reino Unido. Uma odisséia.
Durante o percurso Mozart usava o tempo de viagem para compor e exercitar.
Cidades como Paris, Zurique, Bruxelas, Haia, Amsterdã ou outras menores
no caminho, comemoravam Mozart e sua familia. A maioria das principais cidades foram visitadas
mais de uma vez. Em todas
elas eram recebidos para apresentações pelas familias regentes.
Dos Bourbons aos Orange-Nassau, de George III a Luís XV, da Marquesa
de Pompadour a Caroline de Nassau.
No Reino Unido, o grupo causou sensação tal, que o pai decidiu
prolongar a temporada, promovendo durante duas semanas apresentações
especiais a preços populares em um bar londrino, o "Swan and Harp
Tavern". Uma coisa inédita e inusitada para a época.
Caminho diferente
É preciso ressaltar,
que a prática da familia destoava dos costumes. A soldo, frequentemente
ajudas simbólicas, os artistas comumente eram dependentes de seus
mecenas, na prática, nobres ou autoridades religiosas, para quem serviam
de forma idealista com suas composições e desempenhos musicais.
O importante era não cair em desgraça e manter-se em evidência.
Ser um compositor da corte significava subserviência e dependência
como garantia para o êxito.
Caminho inverso dos jovens Mozarts, chefiados pelo pai, procurando independência,
sem deixar de cumprir os rituais de agradar os poderosos com suas apresentações.
Isso forçou Mozart, desde o início a conhecer um campo inexplorado
e desconhecido, o de livre mercado, o aproveitamento comercial de seu talento.
Por outro lado iria dificultar, no seu amadurecimento, a conseguir um "emprego"
oficial como músico e compositor. As casas reais olhavam de forma
dúbia o jovem músico que cobrava sem segredos e subterfúgios
por seu trabalho.
Aos dez anos de idade, Wolfgangerl
não era mais um garoto prodígio, era um nome na boca mundo.
Descobrira também como a fama facilitava a aproximação
com o sexo oposto, com as beldades femininas, da plebe ou realeza que, impelidas
pelo seu fascínio, disputavam sua atenção por onde fosse,
onde estivesse. Wolfgang Amadeus Mozart, excêntrico, genial, magnetizava
também corações femininos.
Em breve parte 2: O amadurecimento de Mozart / Mozart na Itália / As peripécias
e manias / A irreverência de Mozart: "Vai tomar no .." / O Índice
Köchel / Mozart e Salzburg / Morte / Comemorações em 2006
Copa do Mundo 2006 na Alemanha
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Fontes bibliográficas:
Mozart Briefe (W. A. Mozart, Insel, Frankfurt), Mozart: Eine Biographie (Martin
Geck).
Fontes Online: Wilkipedia, Deutsche Welle, Spiegel Online, Julio Medaglia,
Infonet, Musikarchiv, Mozarteum, Tamino. |