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Operação Última Chance (23/07/2005)

Jean Charle de Menezes  
Jean Charles Menezes

Jean Charles de Menezes visitou o Brasil pela última vez há menos de três meses atrás, depois de um longo período sem ir à terra natal. Ele matou as saudades e, como sempre acontece com quem mora distante da familia e da terra, voltou meio deprimido para Londres. Lá, contudo, sua comunidade de "exilados", naquela atmosfera de um ajuda o outro, sempre faz o cotidiano adormecer a saudade, encarar o trabalho e o futuro novamente.
Londres pelo menos é uma cidade cosmopolita, onde há comunidades de imigrantes de todos os lugares do mundo. Fica mais fácil para o espírito até digerir aquela comida aguada, tão diferente do nosso feijão e quitutes culinários. No Reino Unido até biscoito é sem graça.

Há um mês atrás Jean foi abordado pela polícia na rua e revistado. Ele contou isso aos amigos e primos com quem morava. A Scotia Road , no bairro de Stretham Hill, é uma área típica para imigrantes pobres e trabalhadores. Desde os atentados de semanas atrás, um local permanente de observação para a Sotland Yard. Assim o destino de Jean foi sendo traçado, como um cerco invisível que de repente dá o bote final.
O bote começou a ser armado quando Jean, sem perspectivas profissionais, em um país onde os políticos sempre deram prioridades ao próprio bolso e gerações e gerações de jovens não encontram alternativas outras senão o futebol, o crime ou a debandada do país (às vezes duas ou as três coisas ao mesmo tempo), resolveu seguir o que alguns de sua familia fizeram: Juntar suas coisas e partir.

Em 2001, paralelamente,  era dado o desfecho de uma disputa clássica entre o colonialismo ocidental e a fé cega de radicais. O World Trade Center, símbolo dos novos tempos da globalização e no coração da capital mundial do cosmopolitismo, era demolido através de aviões pilotados por fanáticos.
As consequências, dirigidas por outro fanático religioso, do alto de seu poder no centro do império, foram dando curso ao cerco, que não apenas vitimou o brasileiro Jean, mas outro brasileiro, Sérgio Vieira de Melo no dia 19 de agosto de 2003, quase dois anos atrás.

Os atentados de Londres, há quase três semanas atrás, deram à capital inglesa  um clima somente visto nos bombardeios alemães durante a segunda guerra. Com a diferença que os inimigos agora não chegam do céu na forma de misseis nazistas, mas estão em cada um que tenha um mínimo de exotismo ou qualquer gesto suspeito.
A paranóia chegou a tanto, que os motoristas de metrô chegaram a ensaiar uma greve, negando-se a trabalhar sob tantos riscos, o que provocou a intervenção do próprio primeiro-ministro Blair.
Quando um chefe de governo precisa convencer motoristas de metrô a trabalhar, é de se pensar onde as coisas foram parar.

Jean não teve, como Vieira, uma mínima chance de defesa. Cinco tiros na cabeça provam isso.
Vieira foi vítima dos fanáticos do outro lado do front. Jean, longe dos focos de conflito direto, estava a caminho do trabalho como todo pacato cidadão em Londres e no resto do mundo. Foi vítima de balas do lado que deveria protegê-lo. Essas coisas sempre são assim. Terminam envolvendo quem nada tinha a ver com a história. E sempre poupam os culpados.

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