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Domingo  03/11/2002
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- Arte anatômica ou cemitério ilegal ?
- Exposição polêmica deve ir ao Brasil
- Brasileiros convidados a doar corpos
Fotos: Bodyworld
O plastinador Gunther von Hagens com o ator Dustin Hofmann (esq.), corpos plastinados (meio) e exposição no Japão (dir.)

Gunther von Hagens e seu trabalho são sempre assunto na imprensa internacional e ele ocupa espaço na mídia em geral desde 1977 quando, como reconhecido médico e professor de anatomia na conceituada Universidade de Heidelberg, Alemanha, criou e desenvolveu o processo batizado por ele de plastinação, que consiste numa forma, diga-se moderna, de mumificar corpos humanos dando a eles uma durabilidade como a das próprias múmias. Somado a isso os corpos adquirem propriedades que facilitam o manuseio, corte, tornam-se moldáveis, sem cheiro e sobretudo transportáveis.
Utilizado no início em cadáveres e órgãos destinados a aulas práticas para estudantes de medicina, o processo foi sendo aperfeiçoado por von Hagens até que um dia ele tomou gosto em, aproveitando a flexibilidade alcançada,  dar formas e poses aos corpos e criar com isso o que passou a chamar de "arte anatômica". Criou ao mesmo tempo um monte problemas com colegas e cientistas que, por fim, o fizeram abandonar a cátedra e criar em Heidelberg o seu "Instituto de Plastinação".
Ao começar a expor suas peças humanas nasceu também o debate sobre ética e legalidade de suas atividades.

Plastinação e globalização 

Quando desenvolveu a plastinação Hagens praticamente revolucionou a anatomia. Hoje esta técnica é utilizada no mundo inteiro e o termo já faz parte das boas enciclopédias. O processo consiste em retirar toda a água e gordura do corpo ou órgãos e músculos, após o que é injetada uma resina sintética que, com a propriedade de conservar preparados biológicos, permite plasticidade por um bom tempo até ser alcançado o enrijecimento. Hagens tem aprimorado constantemente o método. Além disso ele cuidou de fazer do seu instituto em Heidelberg uma empresa globalizada. Com a polêmica na Alemanha ele tratou de transferir para o exterior a logística, expandir e fazer de seu invento um grande negócio. Na ex-república soviética do Quirguistão, Ásia Central, montou uma filial ao mesmo tempo que, aproveitando a falência do ensino público, praticamente assumiu a folha de pagamento do Instituto de Fisiologia na capital Bishkek e fez dele a central para seus experimentos. Na China mantém um contrato de cooperação com a Universidade de Medicina de Dalian. Ao todo Hagens emprega hoje mais de 300 pessoas.
No Quirguistão, onde a maioria da população sobrevive com um salário médio de 100 dólares mensais, o plastinador tem além de mão de obra qualificada a baixo custo, uma fonte baratíssima de sua imprescindível matéria prima: Cadáveres. Encontrando a paz que precisa para suas atividades, vive agora na ponte aérea Bishkek-Heidelberg.

Exposições e Brasil nos planos

O financiamento do macabro negócio vem principalmente da renda de exposições. O "Mundo do Corpo" atraiu até o momento mais de 9 milhões de pessoas na Europa e Ásia. Com duas exposições simultâneas atualmente, uma em Londres, Inglaterra e outra em Seul, Coréia do Sul, o necrotério ambulante de Hagens parece fascinar não apenas as massas. Após visitar a exposição de Londres o ator Dustin Hofmann (foto acima) disse pretender voltar trazendo toda a familia. Björk, Tina Turner, Andre Agassi e outras figuras do mundo pop e do esporte fazem parte dos admiradores. "Uma exibição fabulosa" declarou o designer Jean-Paul Gaultier após sua visita. 
Os defensores de Hagens sustentam o valor educativo do trabalho. Em Londres estão expostos 32 corpos e cerca de 200 órgãos plastinados. Uma mostra detalhada que vai desde pulmões a sacos escrotais. Segundo o próprio Hagens 10 % dos visitantes passaram a fumar menos ou deixaram completamente o fumo, mesmo seis meses após visitar a mostra da capital inglesa, numa prova do valor educativo de sua arte.

Esta semana a exposição de Londres ultrapassou a marca de 500.000 visitantes, a de Seul superou os 700.000 em apenas quatro meses. A exibição londrina foi prorrogada até dezembro deste ano mas a assessora  Jeanette Luley declarou à ABKNet que provavelmente a mostra se estenderá por mais um ou dois meses que o previsto.
Jeanette Luley, que organiza o cronograma de exibições declarou também que a próxima exposição será em Munique a partir de março de 2003. Luley prepara no momento o maior passo da empreitada plastinadora: As Américas.
Ainda sem data marcada, ela afirmou que a América será a próxima estação de o "Mundo do Corpo" fora da Europa. A exposição nômade deverá circular no mínimo dois anos no novo continente e o Brasil é o destino mais interessante junto aos EUA, segundo Luley. "Datas e locais estão ainda em aberto, estamos na fase de planificação", disse ela.
A única certeza é que logo as múmias modernas estarão desembarcando no novo mundo.

Brasileiros estão convocados a doar seus corpos

Acompanhados de polêmica e fascínio por onde passam, Hagens e seus plastinadores possuem como objetivo estabelecer exposições permanentes em todas as grandes cidades do mundo.
Felicity Ruperti, assessora de imprensa do instituto (ou empresa?), afirmou o propósito de tornar a anatomia accessível a todo mundo de forma duradoura. Exposições itinerantes não preenchem a necessidade de se conhecer a anatomia humana, fator importante desde a idade escolar para qualquer pessoa. A plastinação veio para abrir este horizonte.
Para isso foi estabelecida a meta de plastinar dez mil corpos. Pouco menos de 70 é número atual. Portanto uma meta pretensiosa. Ruperti confirmou que 5 mil pessoas estão cadastradas oficial e legalmente como futuras doadoras de
seus corpos para plastinação. A grande maioria dos doadores é formada por europeus e asiáticos, fruto da repercussão causada pela exposição por onde passa. Através da ABKNet ela convoca oficialmente os brasileiros a também fazer parte dos doadores. Isso pode ser feito com o preenchimento do termo/contrato de doação na homepage oficial do Intituto de Plastinação de Heidelberg (link ao fim desta matéria).

Pelo visto, a polêmica sem fim sobre o processo que trouxe ao presente um antigo costume faraônico chega ao Brasil antes mesmo das múmias ambulantes de Gunther von Hagens aportarem nas terras tupiniquins.
 
 

Doar seu corpo para plastinação?
Site oficial da plastinação

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