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ABKnet News -  15/02/2006
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Megaescândalo: Ricaços alemães sonegam 4 bilhões de Euros
Lavagem era baseada no Principado de Lichtenstein

Zumwinkel
Klaus Zumwinkel
Ninguém sabe quem passou a informação para a imprensa, mas ontem (quinta-feira), às 7 horas da manhã, um batalhão de jornalistas, cinegrafistas e fotógrafos tomou conta de um quarteirão no bairro chique de Marienburg na cidade de Colônia, Alemanha. Mais precisamente diante da mansão de Klaus Zumwinkel, 64 anos, presidente da Deutsche Post e executivo com mais tempo no cargo  entre todas empresas alemãs responsáveis pela notação do DAX, o indíce da  bolsa de valores do país. A pequena multidão esperava o desfecho de uma operação que normalmente é efetuada na mais completa discrição e sigilo.
Era o início de uma avalanche de notícias que desde ontem ocupa  espaço em toda imprensa teutônica e deixa a opinião pública local perplexa.

Às 8 horas, como anunciado pela informação vazada, paravam em frente à mansão 3 carros policiais acompanhando outros de promotores públicos com mandado judicial de busca e imediata prisão do executivo.
Zumwinkel foi acusado e hoje, ao renunciar ao cargo, admitiu ter sonegado impostos e lavado o dinheiro através das famigeradas fundações do principado de Liechtenstein. A quantia varia, conforme variadas fontes, de 4 a 10 milhões de Euros e o procedimento do executivo era praticado desde a década de 80. No depoimento em Bochum, Zumwinkel escapou da prisão após pagamento de vultosa fiança e comportamento cooperativo durante o depoimento, segundo a promotoria pública. Seu prestigío deve-se principalmente por ter conseguido transformar
a antes deficitária empresa pública dos correios da Alemanha no maior conglomerado postal e logístico da Europa, embora tenha sofrido críticas por fechamento de filiais, redução na qualidade dos serviços e quadro de pessoal. 

O crescimento da Deutsche Post, com Zumwinkel à sua frente, deve-se principalmente, segundo seus maiores críticos, à preservação das vantagens do monopólio estatal para a empresa, embora trasnformada em capital aberto, em prejuízo das empresas privadas concorrentes, ainda hoje com imensas dificuldades de se estabelecer no mercado, devido obstáculos legais intocados,  impostos e defendidos a ferro e fogo pela Deutsche Post. Está, por exemplo, na origem do lobby e influência da Deutsche Post junto ao governo, o pedido de concordata de empresa privada postal PIN, provocando 9 mil demissões, há cerca de dois meses atrás, pela saída dos principais sócios que argumentaram não poder disputar um mercado aberto que funciona de forma fechada beneficiando apenas a ex-estatal. Enquanto alimentava seu lobby e expandia a empresa, ajudado pelas facilidades monopolistas, Zumwinkel também cuidava de driblar o fisco e lavar seu dinheiro em fundações fantasmas cujos endereços sua Deutsche Post com certeza teria que devolver as cartas ali enviadas.

Ponta do Iceberg: Escândalo de sonegação e lavagem atinge mais de mil pessoas

Mas o que tem colocado toda a imprensa em polvorosa é a revelação de que Zumwinkel é apenas a ponta de um iceberg e as autoridades cumprirão nos próximos dias mais de 900 mandados de buscas, originados de 125 inquéritos baseados em investigações sigilosas que abrangem mais de mil pessoas entre ricaços e famosos: É o maior e mais abrangente escândalo financeiro da história da Alemanha. 
Cálculos divulgados por investigadores envolvidos nas diligências estimam em mais de 4 bilhões de Euros aportados ilegalmente nas fundações fiduciárias organizadas pela LGT Treuhand AG, subsidiária do Banco LGT, principal banco de Lichtensstein, pertencente ao príncipe Hans Adam II e sua familia, dona do principado. Todas as pessoas acusadas são clientes da LGT Treuhand AG.  O fato não é coincidência, como discorreremos a seguir.

Escândalo comprova matérias do ABKnet de quase dez anos atrás

A repercussão da, ainda que curta, prisão de Zumwinkel, e do envolvimento de mais de mil pessoas proeminentes da Alemanha tem também causado verdadeiro pânico nos meios oficiais do estado-anão de Lichtenstein. Apesar das permanentes críticas internacionais as autoridades do principado, sempre com evasivas, praticam há décadas a arte de atrair sonegadores em escala industrial ao bancos locais, à revelia dos protestos de governos, como o alemão, e organizações mundiais de combate ao crime financeiro. E não apenas os alemães estão entre seus maiores clientes, embora criminosos fiscais de outras nacionalidades não possuam as facilidades da língua e da vizinhança geográfica.

Há quase dez anos atrás o  ABKnet noticiava em matéria reproduzida na data pelo Jornal do Brasil, sobre a ascensão do país nanico a potência mundial da lavagem de dinheiro. Dois anos depois, em 2001, o mesmo ABKnet revelava, em artigo que foi referenciado até mesmo por meios de comunicação internacionais como The Guardian e Asian Sports, além de amplamente divulgado na imprensa brasileira,  que o então e atual, recentemente reeleito presidente da CBF, Ricardo Teixeira, utilizava a lavanderia principesca de Hans Adam II, e para isso contava com os serviços do mesmos agentes fiduciários (os laranjas oficiais do principado) de barões da cocaína colombiana, bem como do ex-chanceler alemão Helmut Kohl: O escritório do laranja-mor de Lichtenstein, o duplo doutor Dr. Dr. Batliner, detentor do maior número de "clientes" à procura de ajuda para esconder dinheiro de origem duvidosa. 

Um fato, contudo, ocorrrido no escritório do Dr. Dr. Batliner naqueles idos, passou despercebido provavelmente para muitos, com certeza para os agora envolvidos. Um funcionário insatisfeito tratou de copiar as placas de memória dos computadores do escritório e repassar para autoridades fiscais da Alemanha os nomes e dados dos clientes  sonegadores e criminosos. A partir disso, o serviço de informação alemão, BND, iniciou a operação de grampear os processos de compensação eletrônica dos bancos locais, fato também noticiado no artigo do ABKnet mencionado anteriormente. Com base nas transferências, somas e beneficiados, os arapongas cuidaram, ao longo dos anos a cruzar as informações e trabalhar conjuntamente com o fisco. Resguardando-se de brechas legais que impedissem o uso legal das provas contra os acusados, o resultado chega agora de forma avassaladora.
Segundo o diário alemão Süddeutsche Zeitung  a prova mais cabal da interligação destas conclusões é o fato da revelação de que o executivo Zumwinkel desde meados dos anos 80  praticava a sonegação através de Lichtenstein.  O diário afirma ainda que dados das placas de memória do escritório do Dr. Dr. Herbert Batliner deram início às investigações tendo sido igualmente cruzados com outros dados, diretamente ligados a outro episódio, o roubo de dados de clientes ocorrido em 2002 da sede da LGT Treuhand AG. Os envolvidos no roubo, funcionários da empresa,  foram processados mas nunca se soube do destino dos dados. Acontece que os investigadores alemães já afirmaram oficialmente, segundo a edição online do Der Spiegel, que possuem informações e dados grampeados do instituto até o ano de 2005. O medo agora cerca o principado e vai além de suas fronteiras.

Clientes e autoridades de Lichtenstein em pânico

Hoje o LGT Group, em atitude inédita e não convencional para estes casos, veio a público em seu site oficial relatar sobre os acontecimentos e procurar acalmar os ânimos de seus temerosos clientes, explicando que o ocorrido não atinge clientes da empresa que possuem contas a partir de 2003. Além disso a nota afirma que o roubo de dados ocorreu com clientes do LGT Treuhand AG e não atinge os clientes do LGT Bank. Uma atitude que na verdade é uma confissão forçada de cumplicidade com o crime. Provavelmente uma atitude desesperada de tentar conter a fuga em massa de clientes. O principado vive principalmente desta atividade econômica e em torno dela. Fora isso o príncipe Hans Adam II possui alguns vinhedos que pouco rendem em comparação com bilhões sonegados em outras paragens e aportados em Vaduz, capital e praticamente única cidade do principado. São estes bilhões que fazem a população de Lichtenstein possuir uma renda per capita que é duas vezes maior que a da Suiça. Um coisa inacreditável. 

Hans Adam II, na verdade, já afastou-se da chefia política do principado, dando lugar a seu filho Alois nos negócios de estado, mas continua a dirigir com mão de ferro a Fundação Lichtenstein, dona de todos os negócios da familia. Ele, que gostar de trompetear as qualidades financeiras do principado como um "oásis fiscal no centro do deserto fiscal" deve se preparar para os tempos difíceis, pois parece começar a chover no deserto.

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