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Domingo 4/08/02 
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Exclusivo: A cineasta de Hitler completa 100 anos
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Leni Riefenstahl - Uma mulher abnegada (foto:RF)

A frágil senhora, vestida um pouco extravagante para a idade, não aparenta ter o passado de glória e queda, de aventuras e experiências únicas, quando simplesmente sai às ruas de Munique. A fragilidade, acentuada pela idade e talvez por ser mulher, esconde na verdade um mito em todos os aspectos. Condenada por uns, admirada por outros, independentemente de tendências políticas (diga-se de passagem), Leni Riefenstahl, a mulher que criou e lançou a estética na política, mais que isso, esculpiu com seus filmes o padrão estético do nazi-fascismo, filmes que serviram de porta-estandarte e contribuíram decisivamente para a popularização de Adolfo Hitler nas massas,  estará completando, no próximo dia 22 de agosto, 100 anos. 

É impressionante saber que a centenária senhora, cujos passos demonstram a insegurança que o tempo cuida de dotar qualquer ser humano, transforma-se quando tem uma câmera à mão e é capaz de dar mergulhos com 50 metros de profundidade. Mais que isso, Riefenstahl está nos próximos dias quebrando um recorde muito difícil de ser superado. No dia de seu centésimo aniversário será lançado seu filme "Impressões sob as Águas" o que a torna a cineasta com mais idade a rodar um filme, superando o português Manoel de Oliveira, que com 93 anos rodou "Vou para casa" e o italiano Michelangelo Antonioni que aos 89 anos dirigiu "Eros".

O poder hipnótico de Hitler

Mas o caminho de Riefenstahl inicia-se bem antes de sua fase mergulhadora. Mesmo bem antes de, à beira do mar, passear com Hitler, em 1932.
Ela estudou dança e balet na Academia de Artes de Berlim. Uma grave contusão impediu a carreira de dançarina. Não fosse isso talvez jamais tivesse feito outra coisa, "a dança era a minha maior fascinação" diz ela. Mas a fama veio quando, aos 24 anos, em 1926 estreou como atriz principal no filme "A Montanha Santa"  dirigido por Arnold Franck, que tornaria-se seu marido, e de quem separou-se poucos anos depois. 

Foi em 1932 que começou a fase que mais marcou sua vida. Foi também neste ano que deu partida à sua carreira de cineasta, dirigindo "A Luz Azul", uma prévia de seu talento de direção, edição e corte bem como sua capacidade artística de encontrar o ângulo ideal para transformar uma cena banal e simples em algo com caráter grandioso.
Em meados de 1932, Riefenstahl presenciou um evento político no Palácio dos Esportes de Berlim. Era uma manifestação oficial do partido nazista, onde ela pela primeira vez viu e ouviu pessoalmente Hitler, um ano antes de sua chegada ao poder. Ela diz ter ficado absolutamente impressionada com o poder hipnótico que ele exercia. Não apenas isso, mas também a sintonia simbiótica entre ele e o público. Isso a fez curiosa em conhecê-lo de perto, sem maiores análises sobre os valores políticos que Hitler transmitia. Pouco depois isso aconteceu formalmente às margens de uma praia no Mar do Norte, em uma longa conversa. Hitler era um fã de Riefenstahl desde seu primeiro filme "A Montanha Santa" e no encontro já revelou seu desejo de que a jovem cineasta dirigisse um filme de cunho político favorável à causa nazista. Ela diz não ter aceito o convite e diplomaticamente explicou que somente dirigia filmes que a motivassem artisticamente, o que não seria o caso.

A revolução da estética

A resistência durou pouco. Segundo ela, para evitar o ostracismo artístico a que seria condenada, decidiu após insistentes apelos do "Führer", dirigir um documentário sobre congresso nacional do partido em Nuremberg, em 1933. O  "Vitória da Fé", um apoteótico documentário de 63 minutos fundou não apenas uma nova fase para o fascismo, mas criou uma nova forma de propaganda que até hoje é tida como marco, copiada basicamente mesmo para peças de motivo publicitário e revolucionava o estilo, conteúdo e forma do filme-documentário.

Sem montagem ou cenas preparadas, simplesmente com a disposição de 13 câmeras espalhadas estrategicamente, Riefenstahl conseguiu fazer das imagens do congresso de Nuremberg um evento espetacular, com imagens espetaculares que definitivamente ajudaram na também espetacular ascensão do ditador. E começou a dar forma ao padrão estético que faltava aos nazistas. Pela primeira vez a política ganhava um perfil estético e um canal de propaganda moldado sob medida na área da imagem.

Em 1934 ela rodou o congresso seguinte do partido no documentário "Triunfo da Vontade" onde consolidou seu talento inigualável. Foi entretanto com seu filme "Olympia" sobre as olimpíadas de 1936, que Riefenstahl afirmou-se interna cionalmente como cineasta, arrebatando diversos prêmios entre eles o "Leão de Ouro" do festival de Veneza. Baseado principalmente no culto e superioridade da beleza, em especial do ideal corporal do arianismo, Riefenstahl nega contudo que foi seu objetivo interpretar o culto fascista ao corpo ou a superioridade entre raças. Como prova ela cita as imagens de atletas negros como o recordista americano Jesse Owens. Apesar disso o documentário de duas partes foi amplamente utilizado pelos nazistas como propaganda ariana.

Com a perseguição a artistas, a condenação de obras como as do pintor Goya ou Van Gogh pelo regime nazista, Leni Riefenstahl diz ter começado a distanciar-se de Hitler. 
Era tarde. Após a derrocada do regime e o fim da guerra, ela foi rechaçada até mesmo pelos que antes a elogiavam e estigmatizada como um dos símbolos do nazismo. Ainda que outros artistas muito mais serviram ao regime que ela. A criatividade e o seu talento indiscutível a colocavam no primeiro plano ofuscando todo os outros.

África, filme e Hollywood

Procurando o silêncio e processando quem a acusava (ganhou dezenas de processos), Leni continuou seu caminho, passou tempos na África junto a tribos nativas, onde com filmes e trabalhos fotográficos tornou famoso o povo Nuba, tribo africana de áreas do Sudão. Numa de suas idas ao continente negro sobreviveu à queda do helicóptero que viajava. Ela diz ter "Cinco vidas", título de seu último livro foto-biográfico.
Aos 73 anos, em 1975, ela descobriu o mergulho e a beleza do mundo subaquático. No Mar Índico realizou diversos trabalhos fotográficos e agora, simultaneamente com o centésimo aniversário, lança seu filme "Impressão sob as Àguas". 

Leni Riefenstahl é uma figura polêmica. Para muita gente cometeu erros, mas ninguém pode negar a volumosa energia e fibra que possui. Profissionalmente é uma legenda, mesmo para figuras acima de qualquer suspeita como Jean Cocteau, que em 1952 afirmou ser um admirador, e para quem ela era um gênio, ou mesmo figuras pop como o Rolling Stones Mick Jagger.
São cem turbulentos anos que finalmente conseguiram convencer a maior fábrica de filmes do mundo: Jodie Forster está preparando o filme biográfico sobre Riefenstahl. Ela confirmou à ABKNet que os trabalhos de filmagem serão iniciados em 2003. Hollywood curva-se diante da frágil senhora, que já foi a cineasta de Adolf Hitler? 
 


Riefenstahl (no meio) dirigindo "A vitória da Fé" (1933)

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