Sábado - 26/07/2003
ABKnet - Editorial
Exmo. Sr. Presidente
Lula da Silva:
Há coisas
que a gente faz contra a própria vontade. Eu, por exemplo, preferiria
não escrever isso agora. Quer dizer, preferiria não ter motivos
para escrever. Seis meses é muito pouco tempo para julgar seu governo.
Muito pouco para julgar muitas coisas, principalmente um governo. A gente
vê aqui, vê lá, ouve aqui, acolá, vai calando mas,
sem querer, começa a ficar desconfiado.
Será que seis meses também não é pouco para o
índice de desemprego bater um recorde desses? E igualmente não
é pouco para autoridades financeiras internacionais, famigeradas pelo
desprezo que dão a causas populares e problemas dos países
pobres, elogiarem um governo ? O seu governo ? E os elogios que vêm
de figuras como Bush (Deus que nos proteja) & Cia. ? Não vou entrar
em detalhes para não aumentar esses pensamentos negativos. Os maus
pressentimentos.
Só mais uma
coisa: Essas críticas com jeito de rebelião vindas do seu próprio
partido também vieram muito cedo, não é verdade ? Tão
cedo que é de se f icar matutando, quer dizer, deveras desconfiado.
E essa história de Fome Zero, que valha a intenção,
não possui assim um lance de populismo, de acionismo assistencialista,
de ilusionismo? Sem falar nos rumores nada bonificadores que têm acompanhado
a campanha ? Aqui pra nós, Presidente, a gente sabe que não
é esse o caminho. É como aquela história de Mobral,
lembra?
Presidente, não
siga o canto da sereia. Esse canto é traiçoeiro.
Não leve a
mal essas linhas, nem pense que somos do contra. Viu na sua eleição
como os brasileiros que vivem fora pensam e agem? A gente pode dizer que deu
uma força psicológica e eleitoral. O senhor até nos
escreveu uma carta, recorda ?
Por falar em fora do Brasil, não imagine que o FMI e correlatos, nem
esses governos do primeiro mundo vão dar uma sopa na boca da gente.
Eles sim, podemos julgar não apenas pelo que têm aprontado nos
últimos seis meses, mas há dezenas, centenas de anos. Ainda
que nos últimos seis meses tenham perdido um pouco do pudor
que adquiriram na marra anos atrás. Estão tirando a máscara
e mostrando a pouca vergonha, o pouco respeito que guardam pelos povos menos
„desenvolvidos“ (Desenvolvidos??).
Não caia nessa conversa mole de globalização. Querem
mesmo é passar manteiga no nosso nariz. Veja que, na conta dessa tal
globalização, a Europa e os EUA financiam e incentivam a própria
agro-pecuária com nada menos do que um bilhão de dólares,
isso mesmo, em números: US$ 1.000.000.000,00 por dia, Sr. Presidente.
Por dia! Um jornal aqui calculou que uma vaca européia é
mais rica do que um negro africano. Enquanto uma vaca é subvencionada
com 800 (oitocentos) dólares por ano pela União Européia,
um africano recebe por ano 7 (sete) dólares de ajuda. Ajuda não,
esmola. Não vamos falar sobre os trilhões usados para armamentos
destinados a aumentar a desgraça dos povos mais pobres sejam na Ásia,
nas Arábias, na África, no mundo todo.
Uma criança
africana pode valer menos do que uma vaca?
Falo isso porque, como brasileiro, acho que me toca diretamente e devo muito
ao povo africano. Seja na cultura que assimilei, na comida que tenho saudade,
na música que me fascina. Mas falo isso, principalmente, para lembrar
quem são esses fariseus do primeiro mundo. Não mudaram nada.
Siga outro caminho,
Presidente, senão daqui a seis meses a nossa vaca é que
vai pro brejo. Tá certo, a gente vive aqui fora, mas a esperança
que a gente carrega é a mesma de quem vive no Brasil. A gente continua
brasileiro do mesmo jeito. Afinal de contas, o senhor não deixou de
ser nordestino porque foi morar em São Paulo e virou presidente.
Não é verdade?
Atenciosamente
Antonio Bulhões
Editor - ABKNet
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